Wednesday, March 27, 2013

A é?

Um dia de inverno suave que mais parecia outono. Em meio um passeio turístico forças levaram a uma caminhada que seria amena não fosse todos os pesados sentimentos carregados pelos dois. Era dezembro em Verona e o Adige corria apressado e frio. Embora a cidade estivesse abarrotada de turistas e máquinas fotográficas ali passeavam somente pouquíssimos moradores com seus cachorros e bicicletas. Caminhavam admirando o centro histórico do outro lado do rio, onde todos estavam vivendo uma Verona de Romeo e Julieta, Castelos, Teatros e boa comida. Ali moviam-se numa caminhada ao longo do rio. Pensou em parar ali e ficar. Pensou que gostaria de caminhar ao longo daquele rio todos os seus dias. Pensou que podia fazer poesia e brincar com as palavras se aproximando do que sentia. Sentia que ela passava. Que era levada por um vento ou pelas águas do rio. Assim como o rio seguiam seu caminho um ao lado do outro. Mas tão distantes. Não era o frio que impedia as mãos dadas ao caminhar. Era toda frieza que a razão suplantara aos dois. Coração do homem é terra que ninguém pisa. Ouviu isso da boca da avó, mas o ditado era um dos prediletos do bisavô. Esse ele não conheceu, mas lhe importunava igual. Lungoadige. Esse é o termo que antecede o nome de todas as ruas da pequena caminhada. Ela estava reclamando dos óculos que havia esmagado dentro da bolsa. Ela realmente adorava aqueles óculos. Ela poderia ter preservado eles em algumas das proteções que tem. Tanto com o que proteger. Tanto o que proteger. O que será que nos faz negligenciar? Será a sensação de que somos especiais e o mal não nos acometerá? Será o desejo inconsciente de que venha o acidente e nos leve embora algo que não temos coragem de deixar? Os óculos eram franceses. Um achado em um dos brechós cariocas. Tinha custado caro, mas nem perto do que realmente valia. Eram usados, sim. Mas estavam num estado ótimo. Ele sabia exatamente o que ela estava sentindo. Ele que sempre foi apegado ao que tinha e realmente sofria quando perdia. Mas que diferente dela a menor ciência de que algo seu havia quebrado se perdoava de qualquer negligencia e se fazia entender de que o tempo daquilo havia passado. Juntava os cacos e colocava num lixo. Mas como era possível? Era Verona, era a Itália, era o Adige que provavelmente Romeo e Julieta mergulharam juntos numa tarde quente de verão elevando seu amor a sagrada Oxum. Sinceramente não me importa se isso faz sentido. Exatamente porque naquela caminhada pouca coisa seguia essa regra. Era impossível fazer qualquer tipo de conexão entre sentimentos, razão e contexto. Verona, mas por que fazer isso? Turismo. Sim, mas por que diabos uma caminhada Lungoadige? E aquele maldito clima fresco permitindo atitudes dispares com um termino já conversado. Qual o propósito? Sinceramente contar essa história era uma proposta de resposta, mas as perguntas parecem com dia em que resolvemos colocar veneno de barata no ralo embaixo da máquina de lavar. Aparentemente todas as baratas do prédio vieram compor a batalha das baratas contra os envenenadores, e você acuada entre a sala e o escritório. Lembra disso? É assim que minhas perguntas te deixam? Acuada? Ela disse que estava confusa. Mas tinha certeza de que não queria mais. Não importa muito o que foi dito. Importaria mais o que ela estava pensando naquele momento. Mas ele só via seu rosto. Lista. Seu caminhar. Lindo. A proximidade duvidosa. A conversa trivial. Disse que um dia faria um filme com aquele passeio, ela riu e perguntou se poderia atuar representando ela mesma. Não! Ele respondeu. Mas somente ela conhece o que deveria passar na cabeça da atriz. Ele ali preocupado em sintonizar seus sentimentos com os sentimentos que criava pra ela. Ele viveu ali pelos dois, o maior sentimento de solidão possível. Louco imaginava a sensação do Adige, das árvores, do prédios novos e centenários. Todos que gritavam que o lugar não era deles, que o momento não era deles, que aquilo era falso. Tudo havia acabado. Vocês. Casal. Isso não existe mais. Vivam o real. Ele ouvia a todos. “vou fazer uma poesia!” “A é?” “O rio passa As folhas caem Você passa” Ela riu. Eu rio, o rio. “eu só passo se você me deixar passar” ele queria ouvir. “eu volto” ele queria ouvir. “eu estou aqui” ele realmente queria que fosse. E caminharam... um ao lado do outro. Como já não era. O coração do homem virou coração de menino e todas as pieguices pertinentes ao amor lhe invadiram a alma que temporariamente adquiriu. Ah essas tolices nas quais submergimos quando diante de sentimentos sublimes à razão, pertinentes somente àqueles que transcendem e possíveis de serem transcritos como expressão de alegria quando por um infeliz romântico. Felizmente um momento essa caminhada terminará. O rio continuará, as árvores se renovarão e serão admiradas por outros casais. E por mais que o Adige seja sempre outro. Lungoadige será sempre a mesma. Lungoadige continuará lá como uma sensação que sempre poderá ser visitada.

"o atirador"

assumidamente autobiográfico como nada até agora postado nesse blog independente do apelo de namoradas para sofrerem pelo ciúme de algo que não existe simplesmente como disfarce pelo incomodo com o que está aqui dentro: uma vontade subserviente somente aos meus caprichos capaz de viver muito mais do que é possível e por isso escreve. abre os olhos e fita o teto. mais um dia. mas sequer pensa nisso. esta mais preocupado com o automático de sua vida. porra! se é auto biográfico, pra que enrolar não é mesmo? vamos a poesia: tenho um livro que diz: Especial! tenho uma fé que diz: Especial! tenho um amor que diz: Especial! Mentira não adianta. eu e estou preocupado em continuar dormindo ou ir trabalhar. nessa hora não quero nada, simplesmente levanto e vou contrariando os impulsos de ficar. tenho sempre a impressão de se ficar uma só vez nunca vou conseguir voltar. então me levanto e vou. transformo minha responsabilidade com o trabalho no motivo para esse movimento. não me dou conta de que é somente um esforço para preencher essa existência sem sentido. e quando olho meu filho e fico repleto de satisfação. sim, tenho milênios de sociedade gritando que sim: minha vida tem sentido. mas não tem, morro hoje e viro um trauma. espera, talvez se escrever isso em forma de e-mail, ao Klaus por exemplo, ou ao rapha, ou ao eli. isso tudo pode parecer mais sincero: caro klaus eli e rapha, me adiantei e hoje sou pai. sinto muito, isso não dá significado a existência. e mesmo quando gozamos. o não vem. talvez se gozassemos como porcos. mas não é assim. bem, fico pensando no que deixar para traz e nada tem importância. e o que dou importância é independente de minha existência. e se não fossem todas essas religiões que me cercam eu seria sim muito mais feliz. sem dúvida. nada que eu renuncie hoje merece pranto. e nenhum outro ser merece. tenho uma vida medíocre e provavelmente estou fadado a ela. e não me falta esperança de que a vida possa ser boa com isso. muito boa. extraordinariamente boa. toda dentro dessa mediocridade que pode nos servir melhor que qualquer religião. não sei mais onde gostaria de chegar. mas sinceramente gostaria de dizer a vocês que não tenho problemas que valham o sofrimento que posso sentir a partir dele. e que não posso perder nada que me impeça de continuar nessa existência medíocre. mesmo vocês. grandes irmãos. a única coisa capaz de mudar isso é todo ópio do mundo. duvido da existência do universo. duvido da configuração das coisas de das minhas percepções do real. deus está morto.

Wednesday, November 28, 2012

o diéz da vida

Deito teu colo Vejo amanhecer Deito e calo Espero o sol dormir Água de coco, banana e maça Fumo um cigarro Deixo no ouvido o jazz me contar Sol doura a pele Cafuné embaralha a mente O menino corre, mergulha Levanta e corre fugindo do mar Acontece de vez a vida parar em poesia Acontece que não gosto de poesia

Tuesday, November 27, 2012

fêcho ou fécho

Mas isso tudo não te machuca? Não! Então finge! Porra!

refrescancia. inventando deuses e palavras

Acho que estou cismado com a origem. Cismado em duas partes. A parte que se importa e a parte que... a parte que já sabe. De onde vem? De onde vem? Galinha. Ovo. E vai tudo ficando incompreensível. Eu não medito. Eu rezo. Não ouço. Não vejo. Não sinto. Eu crio. Crio deuses. Crio amores. Desamores. Ilusões e desilusões. Ah, essas são as melhores. As desilusões. Como é boa a sensação de respirar novamente após um mergulho que começa refrescante e termina por sufocar. Se não sufocar e me levantar ainda na mais pura realização da refrescancia. Quando a água ainda toca de maneira mágica a minha pele. Então respiro e ouço meu deus (aquele que eu criei) gritar violentamente em minha cabeça: - Calma! Tem mar pra mais que terra.

de onde vem os macaquinhos

Sabe do que mais? Sabe das coisas que vi? Não, você não sabe nada. Mas só por isso estou aqui, porque o que vi me amadureceu. E tem gente que prefere não ver. Aqueles que vivem da fé. Temos um pacto: eu não os entendo e eles não me entendem, e assim vamos vivendo dividimos o mundo pois não gostamos muito de nos esbarrar. A divisão foi feita numa forma diferente de espaço. Numa categoria que eles chamam de tempo. Eu fiquei com o agora (que eles teimam em chamar de presente, eu discordo, pois esse por mim foi conquistado e não dado) e eles com o futuro. Sinceramente acho que sai ganhando. Pois do futuro prefiro não saber... e quando chega, quando chega vira outra coisa, e então é meu.

mas de onde vem?

Estava com saudades de você. Você que vem aqui e me usa. Sem cerimonias e mistérios, pois minha namorada está olhando e não pode pensar que você é outro além de si. Aquele que chega e me toma, escrevendo sem que me conte. Que saudades eu estava de você.

amor?

Chego em casa. Vejo se você está. – Amor! Amor? Amor... Casa vazia. Três semanas fora. Algumas roupas no cesto. Louça limpa. Deito na cama. Cheiro os lençóis. Teu cheiro. Tento perceber se teu cheiro tem cheiro de cansaço, descanso, prazer. Teu cheiro me conta todos os teus segredos. Mas nunca te contei isso. Durmo com ele sussurrando teus segredos em meu ouvido. Acordo. Você está ali, parada na porta. Me olhando dormir. Mais silenciosa que teu cheiro. – Amor? – Oi, estou aqui.

Monday, October 29, 2012

Quanto tempo? Um ano, dois, três, seis meses? Ele nunca foi bom em perceber o tempo. Quando questionado demorava a lembrar de poucos fatos relacionados ao calendário, então somava, diminuía... Com sorte obtinha alguma resposta. Acendeu o cigarro enquanto tentava esquecer quanto tempo passou desde a última vez que a viu. Seis meses e vinte e dois dias... Não convém dizer as horas, mas ele as sabe. Apaga o cigarro no prato que antes lhe serviu um decadente café da manhã. Caminha até o banheiro. Liga o chuveiro. Água quente. Entra na ducha. Sente a água cair barulhenta. Em tempos de mau agouro vê a água se recolher no ralo. Vermelha. Vermelha cor de sangue. Tem ainda sobre a mesa o livro com dedicatória comovente e intima escrito por ela. Lê como faz toda manhã. Pronto. Está pronto para começar mais um dia repleto da alma dela. Alma que ele mesmo criou e pouco tem a ver com aquela pessoinha cheia de problemas bestas fúteis de criação burguesa que em seu egoísmo se acha a mais generosa das almas.

Monday, August 20, 2012

fora de foco

Ela se olhou no espelho pela manhã e não conseguiu enxergar muita coisa, era somente um borrão desfocado. Automaticamente levou a mão na prateleira ao lado sem precisar olhar, não estava lá! Como se tivesse enfim acordada se lembrou que havia operado sua miopia e há alguns meses decidiu se livrar dos óculos já sem utilidade. Alguma coisa tinha dado errado! Tentou lembrar se não havia sido relapsa no descarte. Procurou na mala da última viagem, mesmo tendo a certeza de que iria encontra-la vazia. Tinha certeza que jogara tudo fora, mas insistia na possibilidade de achar o que não existe mais. Como se num segundo passo de seu despertar percebe o que era realmente importante, seu estado atual. Estava míope. E pela primeira vez em seus trinta e seis anos, estar míope causou estranheza. Não entendia porque aquilo estava acontecendo, pensou que os médicos erraram, pensou que a culpa era do seu corpo que não recebeu bem os procedimentos, ou simplesmente o resultado, ela viu o erro acontecer em sua mente. Andava de um lado para o outro da casa ainda procurando os óculos. Cabeceira! Eles passaram anos ali! Braço esquerdo do sofá! Mesa do escritório! Eles estavam em toda parte. Sempre odiou o ritual de procurar os óculos! Para resolver isso sempre cuidava bem dos seus, quando o grau aumentava trocava a lente e comprava outro! Tinha óculos meticulosamente espalhados por toda a casa. Em todos os lugares que naturalmente procurava quando tinha somente um. Quando adolescente era o que mais buscava, agora bastava estender a mão e ali estava. Não foi fácil se convencer a operar. Como assim ficar sem meus óculos? Antes de qualquer olhar alheio chegar aos rosto passavam pelos seus aros, escolhidos com cuidado e método. Ao se arrumar antes de sair, ainda nua, escolhia os da ocasião, derivando dele todo o resto. Antes do sexo eles eram os últimos a saírem, a última peça. Quando não deixava, para observar no espelho tudo o que acontecia. Nunca tinham reclamado. Lentes de correção. Na prateleira ao lado da janela. Não estava lá! Ainda com a mão tateando a prateleira se deu conta que não haviam mais óculos. Antes do fim da tábua o cinzeiro. Respirou fundo e num só movimento arremessou-o contra a parede caindo de joelhos no chão aos berros “FILHO DA PUTA! DESGRAÇADO FILHODAPUTA!”. Chorava descontroladamente. Ele havia ido embora há um ano e ela não tinha se livrado daquele maldito cinzeiro! Talvez a última lembrança dele tivesse perturbado há uma semana. Uma semana é quase uma vitória. Ela poderia nunca mais se lembrar dele. Quem sabe? Tinha mandado as roupas por um amigo em comum. Muita coisa foi pro lixo. Aqueles textos horríveis que ele insistia espalhar pela sala dizendo que se organizava melhor assim “visualmente!” falava, e acreditava que um dia seria seu grande romance de sucesso, esses papéis ela fez questão de queimar. Era a única cópia! Algum prazer deveria trazer a ela. Aquele maldito cinzeiro! Como pode se esquecer dele? Há um ano ninguém fumava em sua casa. Há seis meses o cheiro de cigarro saiu dali. “De cigarro porra nenhuma”, reclamava com uma amiga, “esse cheiro é daquele maldito Marlboro filtro vermelho que ele fumava”. Levantou-se! Andou calmamente até o banheiro. Abriu a torneira. Lavou o rosto. Aproximou-se do espelho procurando o foco do seu rosto. Fazia tempo que não se olhava de tão perto. Enxergou suas marcas. “Estou ficando velha”! Pensou, “Deixa de bobeira! Você está linda, não tem nada ai além da prova que você existiu”. Ela pode ouvir aquele discursinho babaca das marcas na voz dele. “Estou ficando velha! Estou gorda! Estou míope!”. Não ouviu mais a voz. Deitou novamente na cama, lamentou por não tê-lo mais ali. Lamentou pelos óculos que não tinha mais. Lamentou pelo cinzeiro agora em pedaços incapaz de trazer qualquer coisa à tona.

Wednesday, February 22, 2012

vinte nove anos

Provavelmente existia sim alguma coisa em mim no momento em que nasci. Não conhecimento, não informação, mas desejo. Os anos se passam, a página em branco vai sendo escrita. São vinte e nove anos, de repente vinte e nove linhas. Mas tudo é escrito em mim. O papel ganha tinta, ganha cor, carrega marcas. O conhecimento surge a partir das experiências, aparece quando já estava. Tanto faz.

Posso conhecer.Isso não me faz acordar, não me manda pra frente. Isso quem faz é o meu desejo.

Sem passado. Quando acordo, sou outro. Um novo e pronto, que morre quando dorme. Página branca todos os dias. De marcas tenho a memória de um que experimentou menos, logo um que não sou mais eu. Eu ontem. Aquele nem o seu desejo me importa.

Sou desejo hoje, e se não realizar hoje, ficará para o outro.

Todas as minhas possibilidades estão no que desejo. Este é meu espírito santo. É sopro. É o que me enche de vida.

Sunday, August 28, 2011

Vem a tempestade. O dia era de sol, o céu azul. Mas veio o vento. Vindo. Vindo. Vindo. Vem uma nuvem mais pesada que a nuvem mais pesada. O vento mais forte. Mais rápido. Mais vento. São os deuses enfurecidos. O céu azul fica atrás. A nuvem fica bem no meio. Uma outra nuvem vem logo atrás. Existe um espaço. A da frente para. A de trás acelera. Vem o trovão. Diabos. Anjos. Pesa. Vem outro trovão. Não existe mais nada. Outro trovão. O sol não está mais lá. Somente o som do trovão. O vento que assobia. Bum. Bum. Bum. Bum. Bum. Bum. Bum.

E vem a tempestade. A chuva cai pesada. A nuvem não se suporta. Não suporta a outra. Ela desce. Muita água. Tudo está lá novamente. Pessoas correm. Pessoas gritam. Bum. Bum. Bum. Bum. Todos correm. A água sobe. Todos correm. Porque o mundo vai se acabar em água.