Thursday, May 17, 2007

Hoje no final do expediente brigou sem motivos com a secretaria. No caminho do hotel o garoto fazendo malabarismo já não desperta mais espanto. Sem manobrista ocupa duas vagas. Ignora o casal cheio de carinhos no elevador. Abre a porta com a chave que já estava separada antes de descer do carro, larga a pasta ao lado da cama e deita.

O gotejar da torneira da pia da o ritmo dos seus pensamentos, mas ele não pensa em nada. Ela na cama com outra pessoa determinou o fim do que parecia estável, mas ele já não ligava mais para isso. Em cinco dias o hotel já se tornará tão acolhedor quanto a casa que chamava de lar. Mentira. Nunca havia considerado um lar, no máximo sua residência. Trocou a rotina do caminho de casa para o caminho do hotel, somente isso mudou.

No primeiro dia de hotel ele tentou fechar a torneira bem fechado. Não adiantou. Avisou a recepção por telefone. Nenhuma providência foi tomada. Deixa estar. Acende o cigarro como companhia. Lembra de um compromisso. Consegue ouvir o tabaco queimar.

- Devo estar ficando cego!

Quer ouvir música, mas não liga o som. Somente gotas. Lembra do sucesso da firma. O fim do casamento. A amante de duzentos reais. O transito infernal. A viagem de férias. Dá um trago no cigarro. Queria o vinho da segunda prateleira da adega, mas no hotel não tem. Sente falta da casa. Passa. Se sente em casa. Residência. Ele pagou dois mil reais naquela cama. Ele escolheu a cama. Não escolheu mais nada. Somente a cama. Pagou por todo o resto. Pensou somente nos dois mil reais. Dinheiro não era problema, mas ainda era dinheiro. Sente o dedo queimar e lembra do cigarro. Apaga sua companhia.

Sozinho. Pensa na amante. Pensa em duzentos reais. Dinheiro não é problema, mas ainda é dinheiro. Acende outro cigarro. Ouve o gotejar. Ouve o tabaco queimar. Levanta, anda até o banheiro, liga o chuveiro, verifica a temperatura da água com a mão, abre mais a torneira de água quente. Tira a carteira do bolso e entra, ainda vestido. Molha a cabeça, a roupa, o sapato, estica o braço para não ficar só. Agora um coral de gotas.

Ele não gosta de remédios, não tomou nada quando ela começou. A cinco dias uma dor de cabeça, hoje, parte dele. Dez anos de casamento. Dois de namoro. Um de noivado. Hoje só uma pausa. Mas pausa do que. Já não se lembra de como era antes. O barulho do chuveiro é constante. A gota da torneira não parou, agora, imperceptível. Sua companhia começa a apagar, agora, solitária em um cinzeiro. Dês-percebe tudo. Fecha os olhos. Dorme molhado e sem sua garrafa de vinho. Nem tudo é perfeito.