Wednesday, October 03, 2007

Procuro a simplicidade do louco. É hora de ir ao encontro da beleza da charmosa da insanidade. Para isso troco o café por uma água, acendo meus cigarros em vela, deixo o samba e ouço um jazz. Vasculho toda a dor de mim ainda não retirada. Acho você, me olhando de cima. Sorrindo da minha beleza sem razão. A beleza que não existe no sano! Você está ali, calada, apreciando cada movimento imprevisível produzido pelo meu corpo. Atenta a cada palavra transbordada do discurso sem fio e sem meada semeada a porcos. As pessoas não me olham mais, muito menos ouvem o que digo. Se contentam com as migalhas.
Estou com medo de ser somente angústia. E de quando ela for não ser mais nada. Descubro a essência do insano e faço nascer odor parecido. Quero quartos de paredes acolchoadas. Quero vida fora do tom. Pronto, a cabeça começa a doer. Quase alcanço o ponto. Nem ralo nem grosso. Grosseiro. É preciso mexer para não deixar empelotar. Sentada da pia você me observa, quase cultuando o que assusta outros. É o domador de leões, dentro da jaula com a besta fera, calmo e feliz, enquanto todos os espectadores, seguros do outro lado das grades admiram a ágil coragem do homem com chicote. Mas você usa somente o corpo. Vozes amigas me tiram do transe. Ópio que alucina e tira a dor. Você permanece calada, se comunicando apenas por cheiros, olhares, sons sem sentido. Como um cão farejo teu medo.
Mas o louco sou eu! Outro cigarro. Mais água. Menos realidade. Como um louco acredito em deus. Como um louco flerto com o inferno. E você sentada em nuvens me olha de um céu convencional. Eu vivo de reflexos que brotam de lentes distorcidas. Eu cuspo em toda essa normalidade. Crio a minha formalidade, e ultrapasso a violência revoltosa do charmoso curinga!
Ele lentamente abre os olhos e se da conta que estava sonhando. Levanta ainda nu. Ah, como ele gosta de dormir assim! Lembra dela no sonho, não sabe se prefere lembrar do sonho ou do tempo que passou. Caminha para o banheiro. A água é gelada como só poderia ser. Escova os dentes ali mesmo. Pensando se faz seu café ou se toma na padaria. Não! A última coisa que iria querer agora era o papo de uma balconista desejando um improvável bom dia. Toma seu café apressado, veste seu terno desbotado, pega sua pasta de couro lavado, entra no elevador e sente sua vida descer o poço.
Está cansado de sonhar com ela. A cabeça começa a doer, anunciando o início de um novo dia. Acende um cigarro e pensa naquele vestido, frente única, deixando aquela costa nua. Conseguem ver isso? Ele está completamente perturbado por uma mulher. E alguns chamam isso de amor, outros paixão. Religiosos gostam de banalizar a paixão, exaltando assim o amor. Mas ele sabe a verdade. Entende o que realmente está acontecendo com a sua mente. Está ficando louco. Lembra do sonho. Não entende porque, mas sente vontade de correr. E foi o que aconteceu, ele correu! Uma mão segurando a pasta. Marrom. Na outra o cigarro, quase queimando os dedos. Mas nada ardia. Uma paz foi tomando o seu corpo. Sim, era a falta de ar. Sentou no ponto de ônibus e começou a pensar no que deveria fazer no dia. Ele como todos nós, ou todos os outros, também tinha seus deveres. Esses deveres que a sociedade nos impõe em troca de comida, roupas e algum lazer.
Não é possível fingir que não está acontecendo. Ele está ficando louco. Não pode simplesmente entrar em um ônibus e descer na frente de sua repartição, onde na entrada tem uma barraquinha de cachorro quente, onde ele come ao meio dia se enganando na fé de que aquilo pode ser considerado um almoço. Ele não pode mais viver essas mentiras, não da pra fingir que existe ainda alguma razão ou lógica na sua mente. Daqui a pouco começará a pensar sem a língua. Pensará somente sons, urros. Isso vai acontecer, não tem como escapar. E tudo culpa dela.
Semana passada ele procurou um médico. Contou toda a história:
- Doutor, estou com um problema!
- Qual seu problema filho?
- Estou sendo perturbado por uma mulher.
- Perturbado como?
- Perturbado, vou acabar ficando louco.
- Filho, ela está te perseguindo? São ameaças? Isso você tem de ver na policia, não comigo, sou um clínico.
- Não doutor. Estou apaixonado. Amando. Sei lá como se explica isso, para mim estou perturbado. Sonho com isso todo dia. Estou ficando louco. Não sei mais o que fazer!
- Filho, não posso fazer nada por você.
- Obrigado pai, em nome de Jesus, seu filho amado. Amém.
Quando passa em frente a repartição onde trabalha olha o parapeito do prédio, e ela está lá, sentada, com aquelas lindas pernas sensualmente cruzadas. Calada, simplesmente o olhando de cima. Preciso ser interrompido agora, ou só vou escrever... fui, por força do meu desejo fui interrompido. Incrível, fui pego no flagra. Me senti completamente pego em delito grave. Que cara de pau a minha, escrever essas coisas e achar que vou sair ileso. Jogaria no lixo, com um simples delete, mas minha analista falou que... chega com o que ela fala ou deixa de falar. É coisa minha, e preciso aprender a viver sozinho. Preciso de... sei lá do que preciso. Mas ele entra fingindo não ter notado o olhar do parapeito. Mas todos notaram aquele volume em suas calças. Uma linda mulher lhe dirigiu um sorriso safado. Preferiu a escada ao elevador. Quem disse que tinha uma vida sem oportunidades.
Na repartição a música era francesa. Cantada arrastada. Outra interrupção. Por que nada me vem de madrugada! Falta a poesia branca pousada em minha cama.