Monday, August 20, 2012

fora de foco

Ela se olhou no espelho pela manhã e não conseguiu enxergar muita coisa, era somente um borrão desfocado. Automaticamente levou a mão na prateleira ao lado sem precisar olhar, não estava lá! Como se tivesse enfim acordada se lembrou que havia operado sua miopia e há alguns meses decidiu se livrar dos óculos já sem utilidade. Alguma coisa tinha dado errado! Tentou lembrar se não havia sido relapsa no descarte. Procurou na mala da última viagem, mesmo tendo a certeza de que iria encontra-la vazia. Tinha certeza que jogara tudo fora, mas insistia na possibilidade de achar o que não existe mais. Como se num segundo passo de seu despertar percebe o que era realmente importante, seu estado atual. Estava míope. E pela primeira vez em seus trinta e seis anos, estar míope causou estranheza. Não entendia porque aquilo estava acontecendo, pensou que os médicos erraram, pensou que a culpa era do seu corpo que não recebeu bem os procedimentos, ou simplesmente o resultado, ela viu o erro acontecer em sua mente. Andava de um lado para o outro da casa ainda procurando os óculos. Cabeceira! Eles passaram anos ali! Braço esquerdo do sofá! Mesa do escritório! Eles estavam em toda parte. Sempre odiou o ritual de procurar os óculos! Para resolver isso sempre cuidava bem dos seus, quando o grau aumentava trocava a lente e comprava outro! Tinha óculos meticulosamente espalhados por toda a casa. Em todos os lugares que naturalmente procurava quando tinha somente um. Quando adolescente era o que mais buscava, agora bastava estender a mão e ali estava. Não foi fácil se convencer a operar. Como assim ficar sem meus óculos? Antes de qualquer olhar alheio chegar aos rosto passavam pelos seus aros, escolhidos com cuidado e método. Ao se arrumar antes de sair, ainda nua, escolhia os da ocasião, derivando dele todo o resto. Antes do sexo eles eram os últimos a saírem, a última peça. Quando não deixava, para observar no espelho tudo o que acontecia. Nunca tinham reclamado. Lentes de correção. Na prateleira ao lado da janela. Não estava lá! Ainda com a mão tateando a prateleira se deu conta que não haviam mais óculos. Antes do fim da tábua o cinzeiro. Respirou fundo e num só movimento arremessou-o contra a parede caindo de joelhos no chão aos berros “FILHO DA PUTA! DESGRAÇADO FILHODAPUTA!”. Chorava descontroladamente. Ele havia ido embora há um ano e ela não tinha se livrado daquele maldito cinzeiro! Talvez a última lembrança dele tivesse perturbado há uma semana. Uma semana é quase uma vitória. Ela poderia nunca mais se lembrar dele. Quem sabe? Tinha mandado as roupas por um amigo em comum. Muita coisa foi pro lixo. Aqueles textos horríveis que ele insistia espalhar pela sala dizendo que se organizava melhor assim “visualmente!” falava, e acreditava que um dia seria seu grande romance de sucesso, esses papéis ela fez questão de queimar. Era a única cópia! Algum prazer deveria trazer a ela. Aquele maldito cinzeiro! Como pode se esquecer dele? Há um ano ninguém fumava em sua casa. Há seis meses o cheiro de cigarro saiu dali. “De cigarro porra nenhuma”, reclamava com uma amiga, “esse cheiro é daquele maldito Marlboro filtro vermelho que ele fumava”. Levantou-se! Andou calmamente até o banheiro. Abriu a torneira. Lavou o rosto. Aproximou-se do espelho procurando o foco do seu rosto. Fazia tempo que não se olhava de tão perto. Enxergou suas marcas. “Estou ficando velha”! Pensou, “Deixa de bobeira! Você está linda, não tem nada ai além da prova que você existiu”. Ela pode ouvir aquele discursinho babaca das marcas na voz dele. “Estou ficando velha! Estou gorda! Estou míope!”. Não ouviu mais a voz. Deitou novamente na cama, lamentou por não tê-lo mais ali. Lamentou pelos óculos que não tinha mais. Lamentou pelo cinzeiro agora em pedaços incapaz de trazer qualquer coisa à tona.

1 comment:

Anonymous said...

Deve ter sido difícil optar pela cirurgia e difícil de acreditar que não deu certo!